domingo, 5 de dezembro de 2010

Os Anónimos (By Dâmaso Salcede. Publicação inserida no passatempo semanal em que um leitor tem direito a publicar um post)

É sabido que a blogosfera vive de modas, que, tal como a dita, vão e vêm. Mas há uma que parece perdurar: o ódio contra os anónimos. Um argumento fácil e consensual entre os pares, mas muito pouco convincente.

Ora vamos lá ver, todos somos anónimos nesta aldeia global chamada blogosfera. Os bloggers, que assinam com nicks, diminutivos, nome próprio e/ou apelidos, que tanto podem ser seus como do zé da esquina, que nada dizem sobre os mesmos, e cujos e-mails de contacto identificam apenas o nome do blog, não passam, também eles, de anónimos. Que moral tem então esta gente para praguejar contra uma classe à qual também pertence?

Na blogosfera em geral e na rosa em particular, a nossa preferida e, independentemente da cor do template, a que mais brame contra os anónimos, para além de anónimos, todos são personagens, que mudam de postura, qual actor de novela, dependendo dos comentários, do sitemeter, dos temas da moda, do dia ou do que quer que reja a sua miserável vidinha.

As nossas opiniões não são propriamente nossas, vamos na senda, do que os outros dizem, do que lemos, de quem está na berra, de quem fica bem gostar, dos nossos gostos pessoais, concordando ou discordando, inclusive sobre o mesmo assunto. Quem diz opiniões diz expressões, palavras. Todas fazem parte do dicionário ou foram ditas por alguém conhecido, do público comum, quero dizer, não de meia dúzia de totós. Não são, portanto, propriedade nossa muito menos de uso exclusivo. É claro que quem imita descaradamente outro blogger torna-se mais ridículo perante os demais, já que uma coisa é tentar imitar alguém que tenha feito, de facto, diferença no mundo, outra é tentar imitar a Pipoca...

Os posts sobre malas, vestidos, vernizes e sapatos rendem? Vamos esmiuçar o assunto até que alguém nos chame fúteis (ou os comentários/visitas diminuam) e no dia seguinte lá teremos de encarnar outro personagem e escrever um post sobre livros. As mamas da Rita Pereira rendem? Vamos escrever sobre as mamas da Rita Pereira. Vamos, inclusive, mostrar as nossas(???) Os posts declaradamente exibicionistas rendem? Vamos exibir-nos até que os nossos comentadores se entediem e/ou alguém nos chame à razão e nos mostre como estamos a ser ridículos (eles os há que nem assim se tocam). Os posts sobre o amor rendem? Vamos escrever sobre o nosso amor, pelos filhos, pelo namorado, pelo marido, pelos bens materiais e chatear meio mundo com uma coisa na qual nem nós mesmos acreditamos, mas que achamos por bem exibi-la, como se de um troféu se tratasse. Ou sobre a falta dele, do amor. Também diz que rende. Os números do sitemeter descem, vamos arranjar uma polémica com o blogger do lado, que só por acaso está cheio de visitas. Como bons cobardes que somos, na hora da verdade não nos aguentamos à bronca e a máscara do personagem cai, pior é quando nem sequer damos por isso..., mas o que é isso quando comparado com o número de visitas/comentários a disparar?

Como bons personagens, somos sempre os protagonistas dos nossos próprios filmes. Tal como nos filmes, há os bons e os maus. Mas na vida lá fora, nós não somos nem assim tão bons nem tão maus. Também não gostamos de partilhar, nós gostamos de nos exibir. Nós, os anónimos da blogosfera, somos todos, todos iguais. Na carência, na necessidade de afirmação, na solidão. Sem sentido crítico nenhum e com uma total falta de noção de quem somos e do mundo em que vivemos. E com ego insufladíssimo, todos!

Não somos o que apregoamos nem as nossas vidas são assim tão cheias. Não somos assim tão felizes, muito menos tão importantes ou inteligentes. Ninguém quer saber da nossa opinião, ninguém sequer se lembra que existimos. É preciso ser-se muito egocêntrico, ter-se muita falta de noção, para se achar que um "nome" num blog muda alguma coisa.

Tenhamos juízo, reduzamo-nos à nossa insignificância, e calemo-nos para sempre com essa história da cobardia. Cobardes somos todos, na medida em que apregoamos muito mais do que aquilo que somos. É um papel que nos assenta bem, esse da intolerância, do mau feitio, do falso sentido de humor e da aparente capacidade de encaixe. Do aparente heroísmo, da aparente competência sexual, da aparente inabalável personalidade. Assenta-nos bem mas não é nosso. Quem é, de facto, no fundo e à superfície, o que quer que seja, não apregoa.

Dâmaso Salcede, um anónimo, perfeitamente identificável neste mundinho ridículo que é a blogosfera, ao vosso dispor.

14 comentários:

Isilda disse...

Gostei muito do texto,está muito bem estruturado!
O Dâmaso é o J. da Ega?É que o nome real é mais feio que o nick!!!

Condessa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Condessa de Gouvarinho disse...

Já não aguentava mais!

Eu precisava de entrar no Ramalhete.
Agora sinto-me mais em sintonia...

Dâmaso Salcede disse...

Sinta-se, então, em casa, cara Condessa. Se é que me permite fazer as honras, caríssimo Ega.
Este vosso criado,

Condessa de Gouvarinho disse...

Tenho a certeza de que me sentirei muito benvinda, senhor Salcede. Se me permite, deixarei o comentário ao seu post para mais tarde. Agora, parece-me que estou atrasada para o chá no salão.

Dâmaso Salcede disse...

por quem é, Condessa.

Teresa disse...

(vou só ali vestir o fatinho de Rachel Cohen e já cá venho...)

Condessa de Gouvarinho disse...

Minha casa senhora, se se vai trocar para jantar, ao menos atavie-se correctamente.
RaQuel...

Novos ricos...

Dâmaso Salcede disse...

Ega, Ega, o Pipoco só snob sem berço publicou um comentário meu! Estou exultante de alegria.
Este seu criado,

Teresa disse...

"Casa senhora"?? Olhe lá, ó saloia, aqui não há casas, só palacetes.

Teresa disse...

Salcede, o pipoco é o seu herói? Tss, tss...

Dâmaso Salcede disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dâmaso Salcede disse...

Toda a gente sabe que o meu herói é o Carlos da Maia, Teresa. Perdeu uma boa oportunidade para...
Daqui a pouco junto-a ao grupo da Isilda.

Teresa disse...

Dâmaso, o Pipoco é o Carlos da Maia??? Ai, agora é que chegou a burra às couves!
(o grupo da Isilda é o dos tupperwares ou o da mala vermelha? grupo por grupo prefiro o segundo)